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Aquela Infância Sem Final [Conto]

5 de dezembro de 2012

Comportamento, Cultura

E crianças que eram, vizinhos, brincaram no parquinho daquela pracinha em frente às suas casas, por toda sua infância.

Giravam até enjoar no gira-gira, escorregavam infinitamente no escorregador, eram parceiros inseparáveis na gangorra… Mas todas aquelas tardes, sem exceção, terminavam no balanço. Aquele balanço que rangia as correntes, e parecia sempre pronto para desmontar.

Ele nunca se balançava. Toda tarde a mesma coisa. Ela sentava-se no balanço, ele a empurrava. Ela adorava o vento no rosto, a sensação de aventura. Ele adorava ouvi-la rir com o ir e vir do pequeno banquinho, movendo as pernas para frente, tentando tocar o céu com as pontas dos pés.

Tinham esse hábito de brincar juntos, mas tinham outros hábitos também. Brigavam sempre, quase toda tarde, apesar de feliz, acabava em briga. Afinal, estavam naquela idade em que meninos brigam com as meninas.

E em toda tarde de briga, ela saia do balanço chorando. Às vezes ele lhe jogava areia no cabelo, outras ela lhe atirava terra com os pés. Nos dias mais sérios agrediam-se, pelo próprio prazer de brigar. Alguns dias ele fazia alguma crueldade com as bonecas dela, e em outros, ela lhe arrancava as rodas dos carrinhos.

Eram assim, inseparavelmente inimigos e melhores amigos que se machucavam. E cresceram desse jeito. Acostumados que estavam a comportar-se desse jeito, não entendiam o mundo de outra forma que não a sua própria.

Mas eis que dentro da inevitabilidade da vida, tão previsível, eles seguiram crescendo. E, aquelas tardes que terminavam no balanço, depois da lição de casa, ganharam outro aspecto, que nenhum dos dois saberia dizer o que era, dada sua tenra idade.

Ela, como era natural a todas as meninas, esperava algo dele que não surgia. Ele, como era natural a todos os meninos, esperava que tudo continuasse igual. E houve o óbvio.

Passaram a brigar verbalmente, algumas vezes. Talvez muitas vezes. Talvez vezes demais. E já estavam crescidos o suficiente para conhecer palavras que ofendiam, e ofensas que machucavam fundo. E conheciam-se o suficiente para saber como magoar com poucas palavras, ou com um silêncio eloquente.

Machucaram-se, dia após dia no balanço.

Até quem um dia, novamente nas previsíveis mudanças da vida, ela mudou-se. Fora embora com os pais. Eles já estavam crescidos, e foi uma despedida triste. Não deixaram de, na última tarde juntos, brincar no balanço (que já era pequeno para ela). E também não deixaram de brigar.

Ele também, depois de algum tempo mudou-se. Ambos seguiram a vida, porque a vida sempre segue em frente. E naquela vizinhança, ninguém nunca soube o fim da história. Ficou tudo assim, como a história eternamente sem final daquelas crianças. Há rumores que casaram-se, outros dizem que ela mudou de cidade e ele teve uma filha que ganhou o nome dela. Ninguém sabe.

Mas, dizem por aí, que as memórias deles, até hoje, brincam todas as tardes no mesmo parquinho. Dizem que a memória dele é um menino de cabelos desgrenhados e calção sujo. E a memória dela uma menina de dentes separados e trança no cabelo.

Dizem também que, por serem memórias felizes, elas são mais gentis e não brigam uma com a outra. E que terminam todas as tardes no balanço. Ele a empurra com toda sua força, e ela tenta alcançar o céu com as pontas dos dedos. Até hoje escutam-se aquelas gargalhadas felizes ecoando pela praça. Todas as tardes…

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Cultura geek de verdade!

 

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About Guilherme Paes

Arquiteto de soluções, analista de sistemas, poeta, músico, artista marcial, entusiasta de tecnologia, apaixonado por esportes de aventura… Duas faculdades, uma pós e algumas especializações… Viajante inveterado… Enfim, um cara que vive a mil por hora e dorme bem pouco…

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