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Na Natureza Selvagem (Into The Wild) – Um Apelo à Necessidade de nos Encontrarmos

25 de março de 2012

Comportamento, Cultura

Obviamente que você, isso você mesmo que está lendo esta coluna, tem a sua lista de filmes prediletos, e de músicas prediletas. Quanto mais consumimos cultura, maior a nossa necessidade de classificar o conteúdo, para sabermos exatamente como cada pedaço de conteúdo consumido nos afeta, e em muitos casos, o que desses conteúdos nós queremos manter conosco (músicas, filmes, livros, quadros).

Mas, dentro dessa multitude de material disponível hoje em dia, existem aqueles que deveriam ser “obrigatórios”. Não no sentido de uma “ditadura de conteúdo”, mas muito mais como algo que realmente tem a possibilidade de causar impacto nas pessoas, de modificar-lhes para melhor, e até mesmo de resolver algumas questões existenciais tão comuns a todos nós.

Todo mundo deveria ouvir um dia, com atenção, uma sinfonia. Em silêncio e de preferência ao vivo. E perceber a sutileza e perfeição do encaixe dos instrumentos, o vital papel do maestro, e como até aquele cara que toca os pratos só no final é fundamental. Todo mundo deveria assistir uma peça de ballet clássico, uma peça de teatro do absurdo como “Esperando Godot” de Samuel Beckett. Ler “O Sol também se levanta” de Hemingway, e “Fernão Capelo Gaivota” de Richard Bach. E ouvir com calma o álbum branco dos Beatles. E por aí vai.

Claro, as listas vão diferir, pois elas são baseadas em empirismo, na experiência pessoal de cada um e no quanto aquele conteúdo apela a essa experiência de vida ou gosto pessoal. Mas algumas coisas acabam tornando-se vértices, pois aparecem em muitas listas, são comuns. Afetaram todos os que tiveram contato de alguma forma.

Eu assisti ao filme “Na natureza Selvagem” (Into the Wild, 2007) duas vezes. A primeira em junho de 2009, sentado no sofá com minha ex-esposa numa noite de sábado em que estávamos animados e sorridentes e terminamos debulhando-nos em lágrimas e indo dormir horas depois sem conversar sobre o filme. A segunda foi há quatro dias, sozinho na sala de casa, numa madrugada em que escrevia, e acabei indo dormir chorando e sorrindo sozinho, e tentando não pensar em nada só para aproveitar a sensação provocada pelo filme, sem analisá-lo.

Não vou me delongar sobre detalhes técnicos do filme, elenco, trama, críticas e prêmios. O IMDB e a Wikipedia estão aí pra isso. Mas falarei sobre o que esse filme representa para mim. E porque eu, que raramente choro assistindo filmes (exceções feitas ao clássico “O Campeão” e “ET” quando eu tinha 8 anos), assistindo ao mesmo filme por duas vezes, precisei amparar-me de lenços de papel e acordei de cara inchada.

O filme é a biografia de Chistopher McCandless, um jovem americano recém-formado (com honras) na Universidade Emory, que subitamente decide abandonar tudo. Deixando sem aviso prévio os pais, amigos e família. Ele troca de nome, doa toda sua poupança para fundos assistenciais e queima (literalmente) o que lhe resta de dinheiro numa fogueira. E parte numa jornada em direção ao Alaska, decidido a viver apenas com o que a natureza puder lhe dar.

Cristopher encontra-se profundamente decepcionado com as relações humanas, com os pais que lhe escoderam um segredo ruim por trás de uma cortina de hipocrisia, com a sociedade capitalista que devorava vorazmente tudo o que ele conhecia. E de súbito, convicto de suas idéias revolucionárias, e do alto de seus 20 e poucos anos, decide que as relações humanas estão erradas, e que não vale mais a pena investir tempo em pessoas e em nossa sociedade. E foge.

Foram necessários dois anos para que Cristopher conseguisse atravessar os Estados Unidos, viajando das mais variadas formas. E no caminho, obviamente, ele acaba conhecendo pessoas novas, e construindo algumas relações que ele mesmo julga serem de muito valor. Mas, ainda assim, ele segue obstinado em sua decisão de passar um tempo em completo isolamento. Chegando ao “Denali National Park and Preserve“ no Alaska e alojando-se num ônibus abandonado.

(Evitarei maiores spoilers aqui, mas algumas coisas terei que falar para concluir meu ponto)

Cristopher passa seu tempo de isolamento lendo, analisando o que estava absorvendo de conteúdo nos livros, pensando sobre sua vida e o que ele havia passado até ali e por fim tratando de sobreviver na “natureza selvagem”. E para nosso benefício, ele registra tudo em um diário, que manteve desde sua partida da casa dos pais. Por isso o filme foi tão bem documentado.

A trama apela a todos nós, de forma brutal. Quem nunca quis fugir? Quem nunca se decepcionou com as relações humanas ou com outras pessoas? Todos já tivemos nossos corações partidos por outras pessoas de alguma forma. Quem nunca esteve cansado de sentir-se sugado pelo nosso modo de vida baseado em consumo? Qual de nós nunca sentiu aquela ponta de covardia, no íntimo, por não ter a coragem de romper com uma situação que não lhe agradava e não irá admirar o rompante de um garoto que teve coragem o suficiente para jogar tudo para o alto e agir como um louco?

O mais curioso, olhando para o filme e relendo o que escrevi até aqui, é que não se trata de uma história feliz, ou motivacional. O filme é um drama, e a aventura de Cristopher é terrivelmente sofrida. Mas inspiradora de qualquer forma.

E o garoto que fugiu, termina o filme com saudades dos que abandonou, mas não arrependido, e reavaliando sua posição depois de tudo o que passou, conclui a história anotando as seguintes frases: “Amar é perdoar” e “A felicidade só é verdadeira quando compartilhada”.

Talvez o que me comova no filme seja a fuga, a aventura que tanto me apaixona. Eu passei a vida toda buscando aventura, mas nunca corri todos os riscos, e esse rapaz teve a coragem para saltar no desconhecido, a coragem que sempre me faltou.

Ou talvez o que me faça chorar seja perceber que ele precisou se isolar para sentir falta dos contatos humanos e perdoar os pais.

Mas acho que o que realmente me comove no filme é a mensagem de amor. A constatação de que, mesmo dentro dos contextos mais difíceis, nas horas mais duras de nossas vidas, nas adversidades mais horrorosas que possamos passar, estar sozinho não será a solução.

Sempre valerá a pena nos relacionarmos com as pessoas, nos dedicarmos a quem gostamos e nos importamos. A sensação que o filme me traz é a de que devemos nos entregar sem restrições às amizades, à família e às paixões. Mesmo que eventualmente essas pessoas nos decepcionem ou partam nosso coração. Amor sempre vale a pena. Talvez seja o que mais vale a pena.

Então, termino aqui a coluna recomendando que vocês vejam o filme, pois o que realmente faz estas obras de arte (filmes, músicas, quadros e tudo mais) tornarem-se universais, é o fato de que, não importa qual a sua experiência de vida, elas irão te tocar, te emocionar de alguma forma, e a mensagem será tão íntima que parecerá ter sido escrita para você. Tão pessoal, que depois de escrever essa enorme coluna, eu não consegui explicar o quanto essa história me comove.

Assistam ao trailer!

Beijos e abraços a todos, até a próxima!

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Cultura geek de verdade!

 

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About Guilherme Paes

Arquiteto de soluções, analista de sistemas, poeta, músico, artista marcial, entusiasta de tecnologia, apaixonado por esportes de aventura… Duas faculdades, uma pós e algumas especializações… Viajante inveterado… Enfim, um cara que vive a mil por hora e dorme bem pouco…

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5 Responses to “Na Natureza Selvagem (Into The Wild) – Um Apelo à Necessidade de nos Encontrarmos”

  1. Ju Says:
    Parabéns pela publicação ! Beijos, abraços e até a próxima :-)

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  2. Juh Says:
    Ahhhh E.T, me faz pagar o mico do cisco nos olhos desde 1984….Parabéns Gui!!Orgulho da titia!!!Rs………..

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  3. Alline Says:
    Gui, você sabe que sou sua fã.. ;)
    Parabéns pela publicação, adorei!!
    O mundo precisa de pessoas como você!!
    Beijos.

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  4. Tereza Machado Says:
    Parabéns, Guilherme, atingiu sue objetivo. Despertou-me o desejo de assistir o filme, principalmente após a exibição do trailer.
    Eu sou uma “chorona” convicta, fazer-me chorar não é muita vantagem(rs), mas pela força de sua descrição, terei que comprar algumas caixas de lenços de papel(rs), mas acho que valerá a pena, afinal, já dizia Fernando Pessoa” Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.”
    Grande abraço, já estou ansiosa pela próxima dica, abraços.

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  5. Mariana santos Says:
    Esse filme é incrível, esse cara foi incrível. Um jovem rodeado dessa sociedade que hoje em dia só pensa em dinheiro, só pensa em coisas, como cita ele no filme “isso só sao coisas”, ter essa coragem de abandonar tudo e ir VIVER, ir viver cada dia, cada segundo, cada experiência. É de se admirar. Sou completamente apaixonada pelo filme, assisti pela terceira vez e não me canso

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