O Amor Acontece por Acidente [Crônica]

15 de outubro de 2012

Comportamento, Cultura

banco vazio

“Denise está morta” – Disse sua mãe, entre soluços, no telefone. –  “Morreu hoje de manhã. Atropelada. Logo depois que saiu para ir para sua casa…” – Fez-se um silêncio que nunca mais foi quebrado.

Agora eu tento lembrar o que senti naquela hora. Como reagi.

Eu chorei ? Fui educado antes de desligar o telefone? Disse ao menos um “sinto muito”? Meu coração disparou? Minhas mãos tremiam?

Vamos, lembre-se!

Esforcei-me tanto para esquecer e agora quero lembrar? Estupidez…

Ela surgiu naquela fase complicada quando meninos percebem que meninas não são só aquelas chatas que querem estragar nossas brincadeiras. Ela tinha as maçãs do rosto rosadas. Eu era tímido. Magrelo e tímido demais para achar que tinha alguma chance. Só havia beijado uma vez na vida. Ela era pouca coisa mais nova do que eu, um pouco mais alta, e muito mais esperta. Eu ainda tinha aquele jeito de criança. E cara de bobo. Eu não entendia ironias, sequer conhecia o sarcasmo. Éramos inocentes, como era de se esperar.

Ela fazia escola pública. Poderia pagar uma escola particular, mas tinha cansado de ser alvo das meninas ricas. Voltava para casa de ônibus para desespero de sua mãe. Conversamos pela primeira vez em um dia qualquer em que ela voltava da escola e encontrou com a turma toda na rua, fazendo nada, batendo papo.

Havíamos nos conhecido antes, na escola de catecismo. Ambos odiávamos aquilo, mas nunca efetivamente conversamos. Agora era colega de uma das meninas do meu colégio. Enturmou-se rapidamente, meninas bonitas tem essa facilidade. Nos reencontramos e dessa vez nos conhecemos de verdade. Como sempre, segurei a paixonite atrás de minha timidez, disfarçando tudo com meu humor meio esculachado. Ela estava sempre perfumada. Tinha um rosto lindo. Como será que ela se pareceria hoje ? Será que eu a reconheceria na rua ? Duvido, não tenho fotos dela, não lembro exatamente como era seu rosto, mas lembro que era lindo.

Não sei por que razão mas ficávamos apenas os dois conversando até mais tarde em algumas noites. Todo mundo ia embora, menos a gente. Não fazíamos nada de importante. Conversávamos. Fizemos um caderno de desenhos e poesia juntos. Ela desenhava. De vez em quando ela me escutava tocando violão, na esquina de casa, cantando desafinado. Ela nunca elogiou, nem reclamou. Ela só escutava.

Estávamos na oitava série, o mundo ia mudar, trocaríamos de colégio. Tudo era descoberta e ansiedade. Lembro-me de beijá-la uma única vez. Selinho. Fim da festa. Ela viajou de férias e não nos vimos na volta.

Ficamos 3 anos sem conversar. Um desses sumiços da vida. Outro reencontro. No ponto de ônibus. Estávamos mais divertidos e seguros dessa vez. Éramos mais espertos, mas ainda havia uma inocência em nossas conversas. Sentia-me de novo com 13 anos perto dela. Tímido. Mãos suadas. Conversamos todos os dias. Todas as noites. Desde primeiro dia em que nos reencontramos pela segunda vez.

Nossa história seguiu o caminho óbvio, e começamos a namorar. Era a hora certa. Foram dois meses de descobertas que mudaram a vida toda, do começo até o final.

Ela morreu alguns dias depois que perdemos a virgindade.

O amor nasce e morre por acidente.

(P.S.: A história é real…)

 

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About Guilherme Paes

Arquiteto de soluções, analista de sistemas, poeta, músico, artista marcial, entusiasta de tecnologia, apaixonado por esportes de aventura… Duas faculdades, uma pós e algumas especializações… Viajante inveterado… Enfim, um cara que vive a mil por hora e dorme bem pouco…

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5 Responses to “O Amor Acontece por Acidente [Crônica]”

  1. Nuria Maria Says:

    Esta história eu já conhecia…Pena!

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  2. Débora Camargo Says:

    Uma dúvida, a história é real pra quem ou de quem? Se for “de quem”, não precisa responder. Resumo: Angustiante demais! Nem por isso, deixa de ser apaixonante!

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  3. Guilherme Paes Says:

    Débora, é real. É uma crônica real da minha vida, e foi muito marcante pra mim. Obrigado pelo elogio. Se te interessar leia meus outros textos aqui na UNTITLED.
    Abraço
    Guilherme

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  4. Débora Camargo Says:

    Obrigada. Eu sabia que a resposta seria rápida, assim como tinha certeza que não mentia, quando escreveu ” vivo a mil por hora e quase não durmo”. Perdão, pela intromissão, mas não me passou pela cabeça que a história era sua. Seus textos são bons, justamente por isso, você escreve o que vive, e não se esconde atrás da história. Eu já li vários textos seus, e não teve nenhum pelo qual não me apaixonei. Obrigada novamente.

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  5. Raquel Says:

    Muito Bonito Gui, aliás como sempre, bem escrito, já que é com o coração! Beijinho e saudades

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