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Sobre Carros, Bicicletas e Uma Guerra Urbana Onde Todos Estão Perdendo

4 de abril de 2012

Comportamento

Eu devo começar este artigo dizendo que sou um ciclista. Sim, um desses tantos que se apaixonam pela magrela logo pequenos, e que nunca mais largam dela. E que, depois de adultos, resolvem adotar a companhia de um desses antiquados artefatos de locomoção para o transporte urbano.

Este é um tema polêmico, e tenho a exata noção que, no momento atual especialmente, tocar nesse assunto é mexer num vespeiro.

Após os recentes acidentes com vítimas fatais em São Paulo e no Rio de Janeiro, e os protestos que se seguiram, talvez esse seja o pior momento para me manifestar. Especialmente porque não pretendo fazer apologias, ditar regras, adotar uma posição xiita e irredutível e tampouco quero criar polêmicas ou fazer inimigos. Apenas tenho alguma experiência no assunto e queria compartilhar o que já vivi.

A primeira coisa que gostaria de constatar, é que de fato a bicicleta é um meio de transporte extremamente eficiente, rápido, limpo e saudável. OK. Até o mais irredutível dos motoristas admite isso. Mas o que poucos dos que não experimentam o ciclismo como opção de locomoção séria sabem, é que pedalar é muito divertido e uma terapia ótima. Sim. Pedalar é como uma meditação em movimento, permite uma conexão maior do indivíduo com o caminho que ele faz todo dia, com a cidade, com os outros transeuntes e por fim, com seus próprios pensamentos. Pedalar te faz desacelerar a vida e pensar, e hoje em dia, especialmente em cidades caóticas e estressantes como São Paulo. Em megalópoles onde  90% da população está à beira de um ataque de nervos, qualquer válvula de escape torna-se uma alternativa séria a ser considerada, por todos.

Eu pedalo até meu trabalho, vez ou outra, durante a semana. Em dias de rodízio, ou quando acordo cedo com o dia nascendo lindo e meu humor se ilumina com o sol. Pedalo muito para locomoção aos finais de semana, e para lazer também. Pedalo para ir a casa de amigos, para ir almoçar fora, para ir ao mercado ou ao cabelereiro, para ir ao parque, à padaria e a qualquer lugar. Eu simplesmente pedalo.

Tenho um grande amigo que diz que as ruas foram feitas para os carros, e não para as bicicletas. Um conceito bastante unilateral o dele, mas não equivocado em se tratando de São Paulo. Essa cidade não foi pensada para ciclistas, nem para pedestres, mas numa abstração do conceito de São Paulo, essa cidade não foi, na verdade, pensada. Cresceu desordenadamente, fagocitando periferias longínquas e tornando-se um labirinto monstruoso de 20 milhões de pessoas. E, como tudo o que é mal planejado, acaba prevalecendo por aqui a lei do mais forte. Em tudo. Inclusive no trânsito.

Eu estava falando que São Paulo não é pensada para ciclistas, e não é mesmo. Se a compararmos a Paris, com 440Km de ciclovias (na cidade e em seu entorno), semáforos específicos para carros, caminhões e bicicletas, com o programa de bicicletas gratuitas VELIB. É óbvio que o ciclismo, aqui, é tratado como uma brincadeira.

Mas na minha opinião, este não é o problema. O “xis” da questão é que não somos uma cidade adequada a bicicletas, porque nosso trânsito não é educado, nossos motoristas são rudes, grosseiros, agressivos e não tem respeito à vida e ao bem estar alheio.

Com todas as ciclovias de Paris, caso seja necessário pedalar no meio de uma rua, todo motorista zelará pela segurança do mais fraco primeiro. Em Amsterdã, que é meca do ciclismo urbano, as bicicletas estão junto com carros e ônibus, e são tratadas com respeito. Digo mais, tratam-se as pessoas na rua com gentileza, estejam de carro, moto, bicicleta ou a pé.

Você, que acha um absurdo o que eu estou falando, que costuma tirar as famosas “finas educativas”, que causaram a morte de uma moça na paulista esses dias, você já pensou no ser humano em cima da bicicleta ?

Pode ser o próximo prêmio Nobel da paz, pode ser o próximo presidente, ou um grande escritor que publicará seu próximo livro predileto, ou o médico que salvará a vida do seu filho. Não importa tanto. Mas pode apostar, que todos têm pais, irmãos, amigos, esposas(os), filhos, cachorros… e um conjunto enorme de outros seres humanos que gostam deles como estão, vivos e inteiros.

Isso vale para o pedestre que atravessou fora da faixa também, diminuir a velocidade é protegê-lo dele mesmo, de sua imprudência. Ou para o motociclista que perdeu o equilíbrio no corredor. Ou para o ciclista que você tem certeza que te fechou. E até para o outro motorista que está devagar na sua frente e você quer esganar.

Num mundo onde cada um cuida só de si mesmo, acabamos todos descuidados, e nos descuidando. Numa sociedade onde tudo é olho por olho e dente por dente, estamos fadados a terminar nossas vidas cegos e banguelas.

Não estamos na rua para nos agredir, para competir com nossos veículos. Não existe essa guerra que está se declarando entre carros x motos x bicicletas. Não precisamos entrar nesse clima, jogar esse jogo onde todo mundo perde.

Enfim, não estou fazendo apologia a isso ou aquilo. Tenho carro e bicicleta, já tive moto também. Já fui um péssimo motorista (desses barbeiros mesmo), já fui um jovem imprudente e inconsequente. Já sofri acidentes por culpa minha e dos outros. E hoje, com meus 30 e tantos, aprendi que nada paga a gentileza, o carinho com o desconhecido. Proteger quem é mais fraco deveria ser um desejo óbvio do mais forte, mesmo porque, em algum momento você será o pedestre atravessando a rua, ou será seu filho na frente da escola, ou seu sobrinho andando de bicicleta, ou sua avó velhinha que não viu o farol de pedestres fechado.

Gostaria de concluir aqui dizendo que, independente do meio de transporte escolhido, a gentileza deveria ser obrigatória em todos, tal qual a prudência. Façam uma experiência, sejam gentis, protejam o mais fraco, buzinem para avisar e não só para xingar. Se puderem, vão de bicicleta ou a pé para o trabalho um dia, experimentem estar na posição do mais fraco para entendê-lo melhor.

Deixemos de lado nossa vaidade, nosso orgulho de uma posse, nossa falta de senso comum e sejamos humanos antes de sermos motoristas, ciclistas ou pedestres. Sejamos humanos primeiro, e depois todo o resto.

Beijos, abraços e até a próxima.

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Cultura geek de verdade!

 

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About Guilherme Paes

Arquiteto de soluções, analista de sistemas, poeta, músico, artista marcial, entusiasta de tecnologia, apaixonado por esportes de aventura… Duas faculdades, uma pós e algumas especializações… Viajante inveterado… Enfim, um cara que vive a mil por hora e dorme bem pouco…

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One Response to “Sobre Carros, Bicicletas e Uma Guerra Urbana Onde Todos Estão Perdendo”

  1. Ju Says:
    Assino embaixo!

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