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Causos da Mata: Pau que Cai, Pau que Vai [Crônica]

30 de maio de 2012

Cultura

Essa vai para todos os auxiliares de campo do Jirau, em Rondônia, em especial ao Manga, de quem eu ouvi a história.

A Amazônia é linda. Um dos locais de maior diversidade biológica do nosso planeta. São macacos, aves, morcegos, plantas. Em uma única castanheira – que na humilde opinião deste que vos escreve, deveria ser a árvore símbolo do Brasil, e não o Ipê Amarelo – podem ser encontradas espécies novas de insetos e outros invertebrados.

Mas quem já foi na Amazônia esperando ver uma profusão de bichos pulando na sua frente, igual aos programas de TV, vai ficar certamente decepcionado. Aves cantando são inúmeras. Ver a ave que cantou? Bom, aí são outros quinhentos.

Você pode passar dias sem ver um único macaco e quando ver algum bando, eles estarão tão altos, nas copas das árvores, ou com uma vegetação tão densa entre você e eles, que vai ser difícil visualizar um. Quando muito, vai ver um galho mexendo e uma sombra, um borrão contra o céu. Mais difícil ainda vai ser tirar uma foto.

Mas uma coisa é certa: sua primeira vez na Amazônia, especialmente à noite, vai ser um pouco assustadora. Primeiro pelos inúmeros insetos que vão fazer do seu rosto um belo campo de pouso. Segundo, pelos incontáveis (e intermináveis) sons que você vai ouvir e não vai saber de onde veio, que bicho fez ou se é ou não perigoso. Só com muitas horas de campo e muitas noites de mato vão mostrar que sons são aqueles que você ouviu.

Pois bem, a história seguinte é verídica e foi ouvida por mim durante uma dessas noites na Amazônia…

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“Então rapaz, uma vez eu estava aqui com um grupo de novatos. Primeira viagem deles na Amazônia. Primeira noite no matão da Amazônia.

Tudo silêncio, só grilo chiando, vez ou outra um pio, ou um rato-de-espinho que resolveu cantar lá da toca dele, um buraco no altão de um toco.

Noite quieta, mas no quieto é que o coxixo fica alto e se escuta fofoca mais cabeluda e você fica de orelha em pé, escutando o que quer e o que vem sem querer.

E vem o barulhão: TUF!

Os novatos ficaram brancos de susto! Foi um olhando pro outro, sem saber o que falar, só o susto e espanto.

Eu, que vivo aqui desde molequinho, sabendo que barulho na mata pode ser e pode não ser, mas em geral não é, e sem querer causar terror sem precisão, pois o preciso é feito na calma, respondi quando uma menina me perguntou:

- Que som é esse Manga? Que foi isso?

Eu, na calma da minha rede, disse:

- Preocupa não, é só um pau caindo da árvore.

E a calma retornou no acampamento, como se deve.

Coleta um bicho aqui, espanta uma mariposa ali e TUUUUF! Outro barulho. Dessa vez mais forte.

Mais forte também foi o branco na cara deles. E veio a pergunta:

- E isso Manga? Esse barulho foi mais perto!

E eu:

- Liga não. É outro pau caindo.

Como o que não falta no matão da Amazônia é árvore, e com elas os paus, e como o destino de um e todos, seja pau, chuva ou gente, é o peso do peso em si e o encontro do chão na queda, todos se conformaram com os muitos “paus caindo”.

Mais tarde, cansaço de noite em claro e sono atrasado, o silêncio ficou grande, pois até o grilo tem hora que cansa da fuzarca e se aquieta. Mas aí teve uma hora que o som foi outro. O TUF foi um TUFÃO e esse não veio do alto não. Foi som de mato mexendo, de coisa escorregando em trilha e arbusto.

O susto grande e dessa vez a pergunta virou dúvida:

- Manga, e isso agora? Vai dizer que foi pau caindo?

- Êita. Isso não, se segura nas pernas que isso aí foi pau correndo mesmo!”

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Cultura geek de verdade!

 

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About Adalberto Cesari

Biólogo, especialista em morcegos. Apaixonado por ciência, tecnologia, ficção científica e boa música. Amante da história antiga do mundo e da contemporânea brasileira. Crítico demais, mas otimista ao extremo. Às vezes falo sério, mas penso em memes. E por ser mineiro, consigo ler Guimarães Rosa sem precisar de dicionário.

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