Jogos Vorazes: A Verdade que Incomoda

3 de abril de 2012

Cultura

cultura-abril2012-001

Escrevo esta crítica ainda sob o efeito do filme, visto quinta-feira (29/03), no cinema. A palavra que martela em minha mente desde que deixei a sala de exibição é “PERTURBADOR”. Jogos Vorazes é no mínimo perturbador.

Eu realmente não sabia o que me esperava ao decidir assistir este filme uma vez que a escolha deu-se mais pelo apelo da mídia. Contudo, Jogos Vorazes (The Hunger Games) tem ingredientes em sua trama que o distanciam de um mero blockbuster de verão atrás de bilheteria.

Infelizmente ainda não li o livro, de outra forma, esta crítica fosse talvez mais fiel. Mas vou tentar resumir a estória antes de transmitir as minhas considerações.

No que restou de uma América do Norte pós apocalítica, controlada pela Capital (a meu ver uma simbologia do “sistema”, do governo mundial), existem 12 distritos diferentes entre si mas com algumas coisas em comum – todos fornecem algo que a Capital precisa e a maioria é pobre. No caso do Distrito 12, berço dos heróis do filme, Katniss Everdeen e Peeta Mellark a situação é semelhante à um campo de concentração (até as vestimentas dos personagens se assemelham à um) onde há muita fome e privação.

Para manter a população rebelde (os mais pobres é claro) sob controle após a insurreição e extermínio do Distrito 13 que esboçou um levante contra a Capital, ficou estabelecido que como punição, os outros distritos teriam que todos os anos, sacrificar 2 adolescentes para se enfrentarem numa floresta cheia de perigos (que depois descobrimos serem plantados pelo próprio “controle supremo”) até que de 24 participantes restem apenas 1, ou seja, uns morrem pelas causas naturais do ambiente (insetos, animais, plantas venenosas, fome, sede) e os que sobram, matam-se uns aos outros. E tudo isso transmitido ao vivo pela TV com interação do público que “escolhe” e “ajuda” os seus favoritos, numa mistura de reality show, jogos romanos e “American Idol“.

Olhando assim parece bastante cruel e consequentemente desinteressante mas a autora desenvolve um roteiro tão dinâmico que torna-se envolvente! Além do que a performance dos atores, principalmente Jennifer Lawrence e Josh Hutcherson, está impecável e convence que aquela realidade “alternativa” pode até um dia ser real.

Mas o que me motivou a escrever este texto se passa nos bastidores da estória, no pano de fundo da ação. Gostaria de conhecer melhor a Suzanne Collins para saber o que a motivou a escrever esta estória, de certa forma, tão corajosa. Digo isso porque uma americana escrevendo uma estória que se passa num “Estados Unidos” pobre, decadente, separatista e cruel vai contra tudo que se pregou até hoje sobre o sonho americano, sobre a liberdade de expressão, sobre a igualdade de direitos e a incorruptível constituição americana.

Acredito que a a maior parte das pessoas que forem assistir Jogos Vorazes sequer pensará nisso, mas para quem já viveu lá e conhece a cultura do americano médio, sabe o quanto esta estória esta fora dos padrões e talvez por isso, tenha feito tanto sucesso.

Após ver o filme pesquisei inúmeras críticas para saber se meu pensamento estava só e não está. Até na televisão americana está sendo comentado o impacto deste filme, pelas razões que eu explanei acima. Há quem diga também que segue a linha de Admirável Mundo Novo e THX 1138, este último de George Lucas no início de sua carreira. Ambos falam de um mundo futurista onde os seres humanos serão totalmente controlados pelo sistema e tentam se rebelar. As sequências de Jogos Vorazes – Em Chamas e Esperança, vão falar justamente sobre estas rebeliões.

Me lembrei também de outro filme que assisti recentemente, que embora tenha um tema central interessantíssimo, não foi bem executado e por isso, passou quase despercebido – O Preço do Amanhã. Assim como em Jogos Vorazes uma maioria pobre vive e morre em zonas de susburbio isoladas para sustentar uma minoria rica que vive em um cenário nababesco em um único bairro. Neste caso, o mais interessante é que o “dinheiro” do futuro é algo que já estamos aprendendo à prezar muito hoje em dia, o tempo.

Por tudo isso, mais do que um “big-brother de carnificina juvenil”, Jogos Vorazes tem seu valor. Mas reconhecê-lo só será possível para aqueles que tenham um pouco mais de tutano, maturidade e consigam enxergar além do próprio umbigo.

Assistam ao trailer.

 

, , , , , ,

About Simone Sparsbrod

Sou "part-time" mãe e esposa, "full time" funcionária de multinacional e cinéfila. Casada com o Klaatu e mãe de uma "Raiz de Mandrágora". Queria trabalhar no Omelete, mas se consola em fazer resenhas de filmes para os amigos. Coolest Mother Ever, sabe tudo do universo teen. Manda bem no volante e mal na cozinha. Se acreditasse em vidas passadas, teria vivido na Idade Média. Gosta de vacas e de morcegos e sua missão na terra é ser amiga.

View all posts by Simone Sparsbrod

4 Responses to “Jogos Vorazes: A Verdade que Incomoda”

  1. Isa Says:

    Eu também assisti este filme recentemente, também nao tinha a menor idéia do que esperar, assim como nao li o livro. De fato é no mínimo perturbardor, para nao dizer “disgusting” – nojento, sim foi esta a sensacao após algumas cenas.

    É de fato uma crítica extremamente forte e verdadeira do sistema, da sociedade que vivemos. A estória mostra muito estes elementos – uma minoria que manda e desmanda, que determina as regras, uma maioria que vive oprimida, na pobreza. Por outro lado tem o elemento dos reality shows de hoje, tao populares, que as pessoas fazem qualquer coisa (durante o filme me lembrei do programa “I love money” da VH1), fazem as suas “aliancas”, parcerias no comeco para no final acabarem uns aos outros de qualquer forma.

    Mesmo reconhendo tudo isto, “uma história nojenta” foi a minha sensacao ao ver o filme. Ver aquela elite decadente colocando criancas para lutar até a morte é realmente nojento.

    Apesar disto ainda quero ver a sequencia – pois ainda resta a esperanca, de que esta populacao oprimida reconheca o quanto é oprimida e se rebele, se liberte.

    Reply

    • Simone Says:

      Prezada Isa,
      Muito obrigada pelo seu comentário. Você conseguiu captar a essência do meu texto. Eu também tenho esperança de que as sequências possam redimir esse lado “nojento”.

      Reply

  2. André Chaves Says:

    Oi, eu li os três livros de Jogos Vorazes, e assisti ao filme, eu acho que no que se trata de entretenimento o filme é extremamente envolvente, dinâmico e por ai vai. Mas sim, é uma crítica a um sistema onde poucos mandam e muitos obedecem, e como você (Simone) disse, os atores e o filme de uma maneira geral fazem parecer que essa realidade “alternativa” possa um dia acontecer.
    Vou ser sincero e dizer que achei o filme excelente, e os livros tão magníficos quanto, e apesar de por trás da estória ter toda essa crítica contra o governo eu não acredito que Suzanne os tenha escrito com essa intenção. Mas, só conhecendo a autora mais a fundo para saber.

    Eu não vejo a estória como algo “nojento”, mas como uma crítica, e principalmente como uma nova sequência que vai tirar um pouco da fantasia de romances vampirescos e jovens com varinhas mágicas da cabeça dos adolescentes. Pode ser que agora se eles olharem para todo esse lado mais crítico do best-seller olhem melhor para o sistema injusto e corrupto que de uma forma ou outra atinge a todos nós.

    E sim, as sequências vão focar em uma sociedade que acordou pra injustiça que estavam vivendo, tendo a atitude de Katniss de comer as amoras e controlar o resultado dos jogos como percursor pra uma revolução. Leiam os três livros, vale a pena.

    Reply

  3. Simone Says:

    Prezado André,
    Obrigada pelo seu comentário e pelos esclarecimentos! Adorei!!
    Muito Obrigada,
    Simone

    Reply

Leave a Reply