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Rumando para A Tempestade [Conto]

27 de abril de 2012

Cultura

- Em frente marujo!

A ordem pegou-o de surpresa.

- Estamos rumando em direção à tempestade, capitão!

A voz do marujo era trêmula, as ondas aumentavam, o vento já castigava as velas. Os monstros marinhos beliscavam o convés.

- Eu disse em frente! Terra firme é sempre após a tempestade!

E o marujo, ainda hesitante, foi preparando as velas, enquanto via o vulto de ondas gigantes formando-se no horizonte escuro.

- A embarcação é pequena capitão. Não conseguiremos atravessar as ondas. Seremos engolidos pelo mar! Ou algo pior! Ainda temos tempo de dar meia volta!

O Marujo temia tudo a essa altura. O Mar, a chuva, o vento, os monstros que ele tanto ouvira falar. Nada mais poderia lhe fazer acreditar que conseguiriam.

- Seguiremos!

Disse convicto o capitão. Que soava confiante apesar do olhar nervoso e concentrado que lançava ao horizonte enquanto mantinha o leme firme e a nau no prumo, no rumo.

- …

E o silêncio do marujo não era nada senão puro terror.

Algumas horas, ou dias, ou anos passaram-se para que a embarcação conseguisse cruzar a tempestade. Mas, eventualmente tudo deu certo. Algumas velas com pequenos rasgos. Um mastro trincado. Mas tudo estava bem. A Nau seguia em mar aberto e navegando em frente. Fosse frente qualquer direção, já que não existem pontos de referência no horizonte do oceano.

- Capitão. Como é estar convicto de algo tão incerto como navegar por uma tempestade? Como imaginar terra firme chegando quando olhamos para frente e só enxergamos nuvens escuras? Como é possível não temer os monstros marinhos ?

O marujo estava calmo, aliviado. Sentia-se grato por estar vivo, e na verdade, nunca sentira-se tão vivo.

- Veja marujo, não há como saber, eu nunca estive convicto do nosso sucesso, mas tinha certeza que devíamos enfrentar nosso destino. Só o que podemos é sonhar. Sonhamos que tudo ficará bem. Colocamos nossa fé nos deuses que protegem os navegantes, seguramos firme o leme e seguimos. Navegar é o importante marujo, navegar em frente…

A voz do capitão era calma, quase doce. Ele soava paternal e ao mesmo tempo tão próximo, que era como se o próprio marujo estivesse pronunciando as palavras.

- Mas capitão, desculpe-me. Não consigo acreditar. Poderíamos ter tentado voltar. O mar parecia mais calmo olhando para trás. Poderíamos tentar atracar naquele porto anterior se chegássemos antes da tempestade!

O marujo era inquisidor, gostava de racionalizar. Era curioso apesar de ser medroso. O capitão gostava disso. E pensou por alguns instantes, em silêncio, antes de responder.

- Meu bom marujo. Essa tempestade iria nos alcançar… Ou, eventualmente, acabaríamos enfrentando outra. Sempre haverão tempestades, qualquer que seja a direção. Tempestades, e monstros, e ondas, e ventos. Voltar não significa estar seguro, voltar também é uma direção a se navegar, só que não nos leva a lugar nenhum senão os que já estivemos.

O capitão tomou fôlego, deu um trago de rum, pensou mais um pouco e concluiu.

- Existem as calmarias e as tempestades. E o sentido de tudo é sempre navegar marujo. Levar essa nau ao próximo porto, encontrar terra firme. E terra firme é sempre em frente, sempre logo após a linha do horizonte. Controlamos o leme, ajustamos as velas, contornamos as ondas e navegamos. Pois o mar, esse nós nunca haveremos de controlar…

O marujo sentiu os raios do sol nascente brotando no mar, tocando seu rosto. Olhou para o sol logo em frente, na direção em que seguiam. E teve certeza que terra firme estaria mesmo logo adiante. E sentiu-se feliz por poder navegar…

(Esse é um conto autobiográfico, que fala de minha vida no último um ano… e talvez no futuro também. Mas acho que serve para todos de alguma maneira, ou em algum momento. Nós somos a nau. Nosso cérebro, racional, é o marujo. Nosso coração, nosso espírito, é o capitão. E a vida… a vida é o mar por onde haveremos de navegar.)

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Cultura geek de verdade!

 

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About Guilherme Paes

Arquiteto de soluções, analista de sistemas, poeta, músico, artista marcial, entusiasta de tecnologia, apaixonado por esportes de aventura… Duas faculdades, uma pós e algumas especializações… Viajante inveterado… Enfim, um cara que vive a mil por hora e dorme bem pouco…

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4 Responses to “Rumando para A Tempestade [Conto]”

  1. Arthur Says:
    Conto Fantástico!

    Fica uma lição muito importante para mim…espero leva-la comigo.

    Reply

    • Guilherme Paes Says:
      Arthur,
      Obrigado.
      Se for-me possível, com algumas palavras, ajudar quem quer que seja a entender melhor o mundo e ter um pouco de esperança, serei um escritor realizado.
      Abraços,
      Guilherme

      Reply

  2. Débora Camargo Says:
    Obrigada Guilherme, você não escreve, você psicografa sentimentos vivos.

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  3. Guilherme Paes Says:
    Debora,
    Novamente, agradeço o elogio!
    Abraço

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