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Uma Conversa de Silêncios [Conto]

19 de abril de 2012

Cultura

Ele queria dizer que sentia muito, que sabia o quanto a havia magoado. Mas balançou a cabeça e soltou:

- Você não entende mesmo…

Ela, na verdade, pouco se importava com a razão. Não fazia questão de estar certa ou errada. Mas sua réplica foi:

- Porque sou sempre eu que tenho que entender ?

Era como se dissessem exatamente o contrário do que queriam, como se houvesse alguém traduzindo seus pensamentos, mas da forma errada.

Ele pensou em beija-la. Deixar as malas no meio da sala e agarrá-la, seria um beijo que ela nunca esqueceria, mas com suas palavras decretou:

- Então é melhor que eu vá mesmo. Não acho que vamos nos entender nunca…

Ela, orgulhosa como era, queria só que ele a abraçasse. Nunca admitiu que realmente gostava dele, do seu carinho, do seu cuidado. Mas com sua típica frieza, disse-lhe num tom que nem ela reconhecia:

- Nós somos muito diferentes. Você sempre soube disso. E eu avisei que eu sou difícil, eu sou assim mesmo…

Ele escutou calado pela enésima vez algo que não fazia diferença. Durante todo o tempo ele soube que ela era “assim mesmo”, e quis dizer que gostava dela “assim mesmo”. Que ela era meiga e o encantava. Mas as únicas palavras que encontrou foram:

- É, você é assim mesmo, e nunca vai evoluir, melhorar ou querer ser uma pessoa melhor. E ainda assim eu gostava de estar com você.

Para ela a conjugação do verbo “gostar” no passado doeu como uma facada. Ela tinha certeza que não era verdade. Queria lhe pedir que ficasse. Arrancar o orgulho do peito, e chorar no colo dele por uma semana inteira. Mostrar-se enfim frágil. Mas foi o mais inflexível que pôde em suas poucas palavras.

- É como as coisas são. Melhor você ir. Adeus.

Ele queria desabar. Pedir perdão. Propor a ela que fugissem, que de alguma forma sumissem no mundo, para tentar de novo, longe de todos, mas aceitou as palavras e finalizou:

- É… Adeus

Saiu da casa, fechou a porta atrás de si com todo o cuidado. E eles nunca mais se viram ou se falaram.

Os dois queriam dizer a mesma frase, que uma vez não dita, morreu ali no ar. Uma frase eternamente não pronunciada. Um “Eu te amo” que morreu à míngua, numa conversa onde o que era importante, estava sendo dito pelo silêncio.

Ele guardou a frase numa gaveta. Ela jogou no lixo.

Imagem: Arethas

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About Guilherme Paes

Arquiteto de soluções, analista de sistemas, poeta, músico, artista marcial, entusiasta de tecnologia, apaixonado por esportes de aventura… Duas faculdades, uma pós e algumas especializações… Viajante inveterado… Enfim, um cara que vive a mil por hora e dorme bem pouco…

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