Educação e tecnologia

30, Abr, 2008  |  Publicado em PeopleWare  |  2 Comentários | por LobaAlpha

Educação e tecnologia

No filme Tempos Modernos (1936), o personagem de Charles Chaplin[bb] entra em pane ao lidar com as máquinas que executam a linha de montagem de uma fábrica (foto), numa crítica inteligente à substituição do ser humano pela automação. Na vida real, Chaplin, um ícone do cinema mudo, resistiu bravamente às inovações tecnológicas oferecidas pela introdução do som nas produções cinematográficas, numa época em que Hollywood[bb] vivia a era dos musicais. Acabou sucumbindo ao produzir seu primeiro filme com diálogos, O Grande Ditador[bb] (1940) - que, aliás, traz um famoso discurso final a favor da paz e da liberdade de expressão (se era para falar, então que o cinema dissesse algo realmente importante: touché, Chaplin!).

Nos anos 60, da ponte de comando da nave espacial Enterprise, o comandante James T. Kirk é a certeza de que a fórmula “valores nobres e tecnologia de última geração” se torna suficiente para garantir a paz no universo. Esta mensagem está nas “entrelinhas” da série Jornada nas Estrelas[bb] (1966-69), uma produção para TV cultuada até hoje. Duas décadas mais tarde, em outra produção para o cinema, um andróide viaja no tempo para evitar o nascimento de um grande líder, alguém que irá lutar contra o domínio absoluto das máquinas no futuro. Na concepção deste filme, O Exterminador do Futuro[bb] (1985), um holocausto em escala mundial, provocado por um computador, quase dizimou a espécie humana.

Estas três histórias, tiradas da nossa cultura nerd, são apenas tímidos exemplos do quanto a questão tecnologia e humanidade provoca reações diferenciadas em cada civilização e momento histórico. Como defende o livro de Umberto Eco[bb], Apocalípticos e Integrados, existem duas visões predominantes sobre o assunto: os apocalípticos, que são críticos e até contrários à presença da tecnologia nas ações humanas, e os integrados, que acreditam que a tecnologia é a solução para todos os problemas da humanidade (e dos aliens, como acrescentaria o personagem científico Spock, de Jornada nas Estrelas).

Na educação, o debate assume características mais específicas. A Tecnologia Educacional[bb] (TE) costuma ser analisada sob formas diferentes. A mais antiga é entender a TE apenas como a utilização dos meios tecnológicos de comunicação para o processo educativo, ou seja, o uso de recursos, como audiovisuais, por exemplo, para a transmissão de conteúdos didáticos. Outra possibilidade é encarar a TE como parte de uma complexa e persistente conjugação de esforços de alunos, professores e meios tecnológicos em busca de maior eficácia no processo educacional - o que se quer é a regularidade, o aumento da eficiência e o controle dos efeitos buscados.

As duas visões de TE são referências que precisamos analisar ao desenvolver nossos projetos pedagógicos, da mesma forma que reavaliamos os argumentos de apocalípticos e integrados. A tecnologia deve ser vista como meio e não como finalidade. E não pode deixar de ser objeto de abordagem crítica, seja por si mesma ou pela forma como é utilizada (e como nos utiliza). Em outras palavras: apesar da presença esmagadora dos avanços tecnológicos em nossa vida, não se pode perder de foco uma questão fundamental. Se a tecnologia é um meio, então, qual é o fim? O que, neste processo, realmente importa?
Chaplin nos deu a resposta, assim como Kirk e o próprio andróide exterminador. A tecnologia - amada e odiada, dependente e independente, visível e invisível - existe porque nós existimos. Uma constatação óbvia, é verdade, mas que nos lembra de que devemos ter plena consciência do que ela significa. A tecnologia existe porque há vida humana. Mas, que tipo de vida queremos para nós mesmos e para a humanidade? Como a educação (e a dobradinha educação-tecnologia) pode atuar neste contexto?

Uma vez, li que bons navegantes não decoram todas as ondas e todas as gotas do oceano. Eles seguem seus próprios caminhos pois aprenderam a decifrar mapas e a ler as estrelas. Com a educação, não deve ser diferente. Não se trata mais de utilizar computadores de última geração, com toneladas de informações, para repassar conteúdos didáticos que precisam ser decorados pelos alunos. Qual é a real importância de uma aula repleta de efeitos especiais no Powerpoint se os alunos a assistem de forma passiva, sem questionamentos, anotando dado após dado citado pelo professor? A verdade é que já dormi em muitas aulas “tecnológicas”. Numa delas, o professor exibiu um vídeo enfadonho sobre a formação do cérebro infantil. Ao final da aula, para punir a aluna dorminhoca e mostrá-la como mau exemplo para o restante da classe, ele fez uma pergunta sobre o assunto apresentado pelo vídeo. Sem piscar, citei várias idéias defendidas por Vygotsky[bb], um teórico que estudei através de textos e pesquisas na internet para saber mais sobre o desenvolvimento infantil. O professor, após uma careta, percebeu que teria que arrumar outra pessoa para punir. E eu fiquei livre para uma nova soneca.

Definitivamente, estocar informações não é sinônimo de aquisição de conhecimento. E o uso puro e simples de recursos tecnológicos numa aula não é garantia de aprendizado. A TE, portanto, deve passar por um objetivo que considero imprescindível na educação. É necessário investir na formação do aluno crítico, dotado de autonomia de aprendizagem, que saiba deduzir, procurar e selecionar a informação, fazer a conexão entre o conteúdo curricular e o mundo real, transformar o aprendizado em conhecimento para este, enfim, se tornar sabedoria. Tudo, obviamente, em um ambiente facilitador da aprendizagem, seja presencial ou não, conduzido por um professor capaz de entender este processo. Isto implica utilizar recursos tecnológicos de forma criativa e interessante, que despertem a atenção do aluno. E, mais importante: que não provoquem sono…

“Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?
Onde está o conhecimento que perdemos na informação?”
T.S.Eliot

Helena Gomes é jornalista, escritora e professora universitária com especialização em Educação e Educação a Distância.

Compre os livros de Helena Gomes no Submarino, clicando aqui[bb].

 

 

Respostas

  1. Eloisa Menezes Pereira disse:

    7, Fevereiro, 2010 às 9:44 am(#)

    Primeiro e-book da Rede Vivo Educação

    Por Vivoblog em 29/09/2009

    “Um certo dia, observei que as mãos faziam movimentos e fiquei assustada por não saber como usá-las corretamente”. Assim começa o texto escrito por Leydiele. Ele faz parte do livro Brincando com os sentidos, primeiro e-book do projeto Faça um E-book na Escola da Rede Vivo Educação.

    O livro eletrônico acaba de ser lançado e foi escrito por estudantes da 5ª. série da escola EEEF Almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva, de Porto Alegre. A organização ficou com a professora Eloisa Menezes Pereira .

  2. Educação e Tecnologia: Uma crítica feliz | Educação & Tecnologia com Sônia disse:

    13, Junho, 2011 às 2:54 pm(#)

    [...] ao lidar com as máquinas que executam a linha de montagem de uma fábrica (foto), numa crítica inteligente à substituição do ser humano pela automação. Na vida real, Chaplin, um ícone do cinema mudo, [...]

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