Ter ou não ser, eis a questão
4, Abr, 2008 | Publicado em PeopleWare | 1 Comentário | por SoniKat
O que nos impulsiona na direção do ter, do consumir, do poder? O dinheiro, que deveria ser complemento de felicidade, passou a ser um fim em si mesmo. Por quê? Em uma sociedade baseada em valores materiais, o homem continua cada vez mais angustiado, automatizado, aflito e infeliz. Consome vorazmente o que pode. Quando não pode, sente-se inferior, pequeno, sem valor. Psíquica e morbidamente obeso, tem uma fome que não consegue saciar, porque não procura o alimento adequado à sua verdadeira natureza. Seus referenciais são representados pelo que pode obter com o modo de vida capitalista: bem sucedido é aquele que possui roupas de grife, carros, posição social, poder e, principalmente, dinheiro, muito dinheiro. Acumulando coisas, o ser humano passa a ser, ele também, coisa: de possuidor passa a possuído. Em tal condição, descarta e é descartado.
Como podemos deixar que os objetos, que deveriam nos servir, passem a ser desesperadamente perseguidos por nós, como se fossem uma meta em si próprios? Ter, ter e mais ter, para quê? Nas ruas, no trabalho, no contato com os outros, não há mais tempo para sentir a vida. Tudo precisa ser rapidamente consumido: refeições, atividades, tarefas. O dia, que vemos voar, deixa-nos cada vez mais a sensação de vazio, de dever não cumprido, porque se tornou muito curto diante das nossas obrigações.
Assim, a vida é inutilmente queimada no fogo da vaidade, da ganância, da futilidade, tornando-se insuportavelmente fugaz. Como se fosse grão de areia, escapa entre nossos dedos e chega ao fim sem ter sido realmente vivida. A conseqüência do ter, em detrimento do ser, é o esvaziamento moral, afetivo e espiritual. Sentimos a frieza do outro, sua falta de calor, de respeito e, principalmente, de amor, sem perceber que também somos condutores de frieza e de ausência de afeto. O homem destrói por ganância o meio em que vive. Predador e cruel, importa-se apenas com o lucro que poderá auferir. Os meios de propaganda, com apelos cada vez maiores e mais fortes na direção do consumo, tornaram-se os reais condutores de nossas existências. Somos seus meros escravos.
É preciso parar para pensar no que precisa ser feito diante disso tudo: buscar nas profundezas do nosso ser o antídoto que nos permita ser e não apenas ter, refletir sobre a maneira como conduzimos a vida e o nosso relacionamento com os outros, meditar sobre os valores que devem dar real valor à nossa existência, repudiando aqueles que nos são impostos.
Sejamos alguém e não algo. Saboreemos a vida, adicionando um bom tempero aos nossos dias, para que eles não passem em vão! Ajudemos o próximo, transmitindo calor em nossa passagem e deixando marcada na trilha da nossa existência uma forma singular de ser.

13, Setembro, 2011 às 4:36 pm(#)
Olá.
Gostaria de parabenizar o autor do texto, pela claridade que suas palavras disseminam.
Um texto lúcido, claro, simples, mas de uma profundidade abissal. Estava pesquisando para a realização de uma palestra espírita com este mesmo tema, Ser ou Ter, quando me defrontei com o texto deste blog e devo dizer que não preciso de mais nada com o que conduzir minha conversa de hoje. Eu próprio tenho um blog onde coloco meus pensamentos imperfeitos, muito mais como uma válvula de escape do que com qualquer outra pretensão, tomara que um dia um dos meus textos possa servir a alguém como este me serviu. Meu muito obrigado, com votos de muitas realizações e felicidades ao autor.
Um grande abraço.
Ricado M