À quem possa interessar…
1, Abr, 2008 | Publicado em PopCrunch | 6 Comentários | por Coraline St. John
Assim que meu corpo atingiu o chão, uma enorme sensação de tranqüilidade tomou conta do meu ser. Estava calma, e, diferente do que as pessoas costumam relatar, não vi nenhum vídeo da minha vida passar pelos meus olhos, apenas flashes de luz e vozes confusas. Infelizmente, a calmaria passou em poucos segundos e o gosto de sangue começou a surtir efeito na minha boca. Era um gosto amargo que se misturava com a dor absurda da minha cabeça. Eu podia sentir meus dentes que haviam se desprendido da boca, o nariz quebrado e o crânio rachado. Meu corpo, que antes formigava, tentava em vão se levantar.
Estava de bruços, com os braços no peito, sentindo o coração se esforçando ao máximo para continuar batendo. As costelas perfuravam meus pulmões e as pernas pareciam de pano, em posições impossíveis ao corpo humano. Os ossos saltando na pele eram o único vestígio de que ali no chão era um ser humano e, não, um manequim de loja.Meu coração desistiu e meus olhos se fecharam. Fiquei deitada ali no chão esperando alguém vir me buscar. A espera foi em vão. Não havia nenhum ente querido, nenhuma luz branca, nem anjos ou santos. Levantei-me e fiquei surpresa ao perceber que estava movimentando o corpo. Não sentia mais nada. Nem dor. Nem angústia. Nenhum sentimento.
Olhando em volta, tudo estava de volta ao normal. Os estudantes nos corredores, a lanchonete, e a nova edição do jornal da faculdade. Cheguei perto da mesa, e vi minha foto na capa. Dizia que depois de maiores investigações, chegaram à conclusão de que eu tinha me suicidado. Como eles puderam fazer isso comigo? Ódio e revolta foram às únicas coisas que se instalaram na minha alma, para nunca mais saírem.
Todos sabiam quem eu era. Estudante do último ano de jornalismo, 21 anos, apaixonada pela vida e pelos amigos. Minha família é muito religiosa, e minha mãe não cansava de me dizer que a sorte não estava ao meu lado. “Não é bom nascer no dia 31 de outubro. Na verdade, é um péssimo presságio. É nesse dia que as fronteiras entre o céu e o inferno estão abertas. A terra fica desprotegida e as pessoas que nascem nessa data, correm o risco de perderem a alma para sempre”. Não é algo que alguém gosta de ouvir quando se tem apenas 12 anos, mas agora parece fazer sentido.
Estava perdida nos pensamentos quando aqueles cabelos ruivos e compridos me chamaram a atenção. Era ela. A garota que era capaz de assassinar por um amor não correspondido. Apesar da amizade, ela não agüentou escutar um não do seu amor. Sempre deixei claro que éramos apenas amigas, mas isso não a impedia de me infernizar dia após dia. Chegou o fatídico dia em que precisei colocar um ponto final nessa história que estava indo longe demais.
Fomos até a sala de vídeo, no quinto andar, e conversamos. Brigamos, na verdade. Ela, impulsiva como sempre, alterava entre a doçura e a ira. Já estava de noite, e a faculdade começava a esvaziar. Escutei alguém chamando meu nome, e virei para olhar pela janela. Naquele momento, senti algo nas minhas costas e quando dei por mim, estava experimentando uma sensação única de liberdade. Todos os problemas ficaram para trás e todo o meu corpo começou a formigar.
Berros, pessoas gritando, ambulância, nada disso me vem à memória. Não fui ao meu enterro, e quando levantei do chão, já haviam se passado alguns meses da minha morte. Depois disso, fui do céu ao inferno, e percebi que tenho poderes inimagináveis. Posso atingir os mortos e infernizar os vivos. Posso levar qualquer um à loucura e a morte.
Hoje, ela, com 25 anos, está trancada no manicômio da cidade. Passa os dias batendo a cabeça na parede, e gritando meu nome. Claro que todo mundo acredita que ela não aceitou minha morte por que me amava, mas eu sei da verdade. E ela também. Não me cansarei de passar horas ao seu lado, sussurrando doçuras e ameaças. Mas também não me esqueci daqueles que um dia cruzaram meu caminho. Não pretendo descansar tão cedo. Terei sempre 21 anos, e muita coisa para fazer por aqui.
Podem achar que procuro justiça pela minha morte precoce, mas a verdade, é que sou apenas mais um espírito corrompido pelo poder e perdido entre o céu e o inferno.

1, Maio, 2008 às 9:17 am(#)
Muito bom o conto! Arrepiante. (aliás, a imagem escolhida paro o mesmo também é fantástica!)
2, Maio, 2008 às 11:07 am(#)
SE A MORTE FOR MESMO ASSIM??
O QUE PODEMOS FAZER EM VIDA PODE MUDAR MUITO O PÒS-MORTE.
A VINGANÇA É FRACA E DESTRÓI O ESPIRITO.,
SERIA MAIS FACIL PERDORAR E SEGUIR EM FRENTE.
QUEM ERROU QUE PAGUE SEUS ERROS, A BOCA PODE FALAR A MAIOR MENTIRA MAS O ESPIRITO TEM A CONCIÊNCIA DA VERDADE.
2, Maio, 2008 às 2:18 pm(#)
Muito interessante a maneira como descreve as sensações de se estar fugindo do controle da própria vida e seu ingresso em outra dimensão.Parabéns!
2, Maio, 2008 às 3:58 pm(#)
Excelente, o uso das palavras e frases ficou ótimo, e o tema remete a sensações polemicas e confusas. Parabens
2, Maio, 2008 às 7:13 pm(#)
Amei! As descrições dos sentimentos da moça e o clima transmitido é fantástico! Muito bom!! =)
5, Maio, 2008 às 9:41 am(#)
A foto já transmite um arrepio. O texto excelente