O Raio

14, Mai, 2008  |  Publicado em PopCrunch  |  2 Comentários | por Renato Arfelli

O Raio

O rei dos desgraçados. Príncipe dos infelizes. Este sou eu. Prazer, Paulo Fernandes. Paulinho, como alguns me chamavam, ironia por causa dos meus dois metros de pele e ossos. Apelidos? Na adolescência era sempre Cabide, ou então, Lombriga. Que seja. Hoje em dia não tenho mais nem quem me dê apelidos. Que sorte, não? Há, há, há. Idiota.

Quem sou eu? O homem da pipoca. É, pi-po-ca, aquela que se faz com o milho! Só estou nessa por que herdei do meu pai a droga do carrinho. Já se vão mais de 20 anos que estou nessa furada. Antes, até dava um dinheirinho, mas hoje em dia… como competir, se em qualquer Cinemark eles vendem um balde enorme de pipoca pelo preço de dois dos meus pacotinhos? É até engraçado, dois metros de altura e é como se eu fosse invisível. Foda-se.

Tenho mestrado e doutorado na área de saúde eqüina. Você acredita nisso? Saúde eqüina! Coisa de louco, eu sei, mas já ganhei dinheiro alto cuidando de cavalinhos de gente rica. Mas joguei tudo fora, junto com minha família, minha vida social, e a única maluca que já quis me namorar a sério. O fato é que não dava para continuar sendo o cara bonzinho de sempre depois do que eu descobri. Depois de saber tudo o que eu posso fazer. Mas estou me adiantando demais. Deixe-me recapitular a derrocada da minha vida.

Tudo começou num dia de desespero e de fúria. Na época, tinha sido recentemente contratado por um grande fazendeiro do Paraná, que havia me solicitado (assim como a todos que trabalhavam para ele, ou mesmo que estavam à sua volta) exclusividade total. Deveria me mudar para lá, e assim o fiz. No começo, tudo ia bem, excelente salário, a paz de viver no campo, até que a filha do patrão, aquela polaquinha sem vergonha, começou a dar em cima de mim.

Veja bem, eu tinha namorada na época. O que era incrível para um cara que sempre teve dificuldades com mulheres, como eu. Não, eu não era bonito. Nem mesmo simpático. Aquilo fazia da filha do patrão, até onde eu sabia, é claro, a segunda garota que já se interessava por mim em todos os meus, na época, 36 anos. Isso, apesar de eu gostar muito da tal namorada, era um fato a ser considerado.

No começo, tentei resistir àquela jovem tentação de 18 anos. É sério, a tratava, como a todos ali, de modo estritamente profissional. Mas, com a namorada ainda morando em São Paulo, e a garota me provocando todos os dias… pois bem, um dia, o patrão havia saído, e eu aceitei ir até o quarto dela.

Bastardo azarado! Bem na hora que a coisa realmente iria começar, me liga a namorada para dizer que estava com saudades. Pronto. Dei um jeito de desligar logo mas, para meu desespero e raiva absoluta da filha do patrão, meu coração mole fez todo o resto ficar mole também. Se é que você me entende. “Você vai se arrepender disso!”, ela dizia com a sua voz fina, enquanto eu inutilmente tentava balbuciar alguma débil resposta. Em vão.

Algumas horas depois, o patrão, o todo poderoso Coronel, como as pessoas da região o chamavam, havia retornado da cidade, e me chamou em sua sala. Com receio, fui até lá, já esperando pelo pior. “Raio, meu cavalo favorito, o cavalo que VOCÊ operou semana passada, está morto. O que tem a dizer a seu favor?” Nem soube o que falar. A operação fora um sucesso, e sua recuperação estava sendo excelente. “Bem, patrão, eu precisaria examiná-lo, para poder…”

Neste instante, o que eu temia aconteceu.

A filha do homem entrou, chorando, despida, apenas enrolada num lençol, e correu para os braços do pai. “Esse monstro tentou me estuprar”, dizia ela em prantos, esticando o dedo, com sua unha pintada de vermelho (que a vadia havia pintado para tentar me seduzir!) apontada para mim.

Depois disso, tudo aconteceu muito rápido para que eu pudesse pensar ou planejar minhas ações. Porém, cada segundo de tudo o que aconteceu está fotografado com exatidão em minha mente.

A primeira coisa que eu fiz, antes que ele pensasse em pegar uma arma ou chamar alguém, foi fugir, é óbvio. Corri como alucinado, em desespero, indignado e furioso por tudo sempre dar errado, para pegar minhas coisas e cair fora dali para sempre. No quartinho, juntei com pressa o que era mais importante e, quando me preparava para sair, alguém arrombou a porta.

Tião. O mulato. O matador. Tinha quase a minha altura, mas era puro músculos. Pior, o demônio era espero e, claro, andava armado. “Fica quieto que vai ser sem dor, Dotôzinho”. Filho da puta. Eu precisava fazer algo, mas não tinha escapatória. Também, por que eu tinha que ter voltado para pegar minhas tralhas inúteis? Burro.

Foi quando algo muito estranho aconteceu. Algo maravilhoso. Algo sobrenatural. Algo que mudou a minha vida para sempre. Talvez uma benção. Ou uma maldição.

Estava encurralado no quartinho. Tião, apontando o revólver calibre 38 para mim, obstruía a única saída possível, a porta. O Coronel e a filha, já vestida, chegaram também. Lá fora, sons de latidos e gritos. Mais jagunços me procurando. Eu estava transtornado. Desesperado. E também com muita raiva. Não bastava ter tido uma vida toda medíocre, minha morte teria que ser mais imbecil ainda? Culpa daquela vadiazinha mentirosa. Ouvi a arma sendo engatilhada, e senti uma forte tontura.

Tião apontava para mim. Arma engatilhada, pronta para derramar o meu sangue. Agora, parecia que tudo estava acontecendo em câmera lenta Eu me sentia tonto, minha visão se obscureceu. Pequenos pontinhos de luz começaram a dançar no meu campo de visão. Ainda pude perceber que os outros jagunços com seus cães de caça apareciam na porta também, atrás de seu chefe matador, do Coronel, e de sua filha.. Agora eu só enxergava luzes. Meus olhos ardiam. Nunca havia sentido tanta dor. Por que eles não atiravam logo?

“Minha Nossa Senhora, meu Jesus Cristo! O que é que é isso?”. “Cala a boca e atira logo, Tião”. “Pai, eu estou com medo!”. “Só pode ser o filho do demo!”. Ouvia suas vozes, distantes, sem compreender o que falavam. Agora só via aquela luz, que foi se concentrando num ponto central da minha visão. E, quando percebi (agora com minha noção de tempo já normalizada), de meus olhos jorrou um enorme raio de luz, dourada e fulminante, que desintegrou todos que estavam à minha frente.

Devo ressaltar que estupefação é uma palavra deveras fraca para definir o que eu senti naquele momento estranho, extraordinário e triunfal. Uma hora, estava cercado, e com o meu passaporte carimbado e assinado para o além e, no outro instante, todos os meus perseguidores viraram pó, resultado de um raio que eu soltei pelos meus olhos! Isso significava que… eu sou capaz de soltar raios! Seria eu uma espécie de super-herói? Um deus, talvez? Não importava, mas que eu ia aproveitar, ah, isso eu ia!

Sensação de poder, ah, como ela é boa! Saí da fazenda de cabeça erguida, me sentindo um novo homem, mais forte, viril, inteligente. Um homem que conseguiria tudo o que sempre quis, e que o mundo sempre lhe negou. Poderia até mesmo ser rei do país, se eu assim desejasse.

Que piada! Esnobei todo mundo! Um ex-patrão com oferta de novo emprego, a antiga namorada (que, aos olhos do “super-babaca” aqui já nem era mais tão bonita - conseguiria quantas eu quisesse quando soubessem o quão poderoso eu era), e até mesmo a minha própria família.

Pois bem. Certa noite, após passar a tarde inteira matutando sobre o que iria fazer com meus recém-adquiridos poderes, pus-me a caminhar pela avenida da praia, quando vi dois policiais corruptos querendo se aproveitar de uma adolescente bêbada, que mal percebia o que estava para acontecer. “Parados aí, patifes!”, eu disse, engrossando a voz o máximo que podia. “Deixem a garota em paz, e não machucarei vocês!”

Veja bem, não que eu fosse um bom samaritano qualquer. Mas estava ansioso para ter um bom motivo para usar novamente meu raio. Além disso, após os efeitos da bebedeira, a garota poderia ficar agradecida por ter sido salva, e querer demonstrar sua gratidão de qualquer forma, etc., etc., etc., acho que deu para entender. Enfim, os meganhas vieram furiosos para cima de mim, e eu concentrei o meu raio mais poderoso na direção deles.

E nada aconteceu.

Bom… na verdade, eu não diria que “nada” é a palavra mais correta para apanhar que nem um cachorro, e ainda por cima ter que passar a noite toda numa cela, apenas por ter estragado a festinha daqueles canalhas. Mas o fato é que não consegui soltar raio nenhum. Nem naquela noite, e nem nunca mais em toda a minha vida, apesar de ainda tentar, quase diariamente.

E é nessas horas que as perguntas ficam orbitando em minha mente. Por que só consegui executar esta proeza na noite em que aquele mulato tentou me matar? Será que não consigo mesmo fazer novamente, ou apenas não sei como fazê-lo? Sou realmente superior às outras pessoas, ou todos teriam a possibilidade de conseguir soltar raios também? Seriam os tais 90% não-utilizados do cérebro? Ou sou algum tipo de deus fracassado?

Perguntas, perguntas. Conseguirei um dia novamente? Isso acho difícil. Estou cada dia mais velho, e tudo o que me restou foi a porcaria deste carrinho de vender pipoca. E os sonhos com todo o poder que guardo dentro de mim. É… dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Os malditos não sabem como estão certos. Merda.

 

 

Respostas

  1. Raíssa disse:

    18, Maio, 2008 às 12:44 pm(#)

    Excelente conto, moço! Gostei MUITO! =D Espero que publiquem mais coisas que você escrever.

    Achei a escrita muito legal, o clima muito bem construído, parabéns. =D

  2. Suyan Rocha disse:

    19, Maio, 2008 às 9:13 am(#)

    Curti!!!! Ahh e bem feito pro rapaz mesmo… tinha que se ferrar mesmo!! HAUhAUHAuAH XD

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