A primeira vez a gente nunca esquece

4, Mai, 2008  |  Publicado em PopCrunch  |  2 Comentários | por WomanX

A primeira vez a gente nunca esquece

A primeira vez a gente nunca esquece. Não é o que pensava Terezinha. Sua primeira vez ela queria esquecer. Foi um desastre. Nervosismo total. Sentia a boca seca, suas mãos suavam muito. Seu coração batia mais que bateria de escola de samba em pleno carnaval.

Sentia que a qualquer momento poderia desmaiar. Suas pernas tremiam tanto que permanecia sentada. Não sabia onde colocar as mãos e nem o que dizer.

Levou um susto quando ouviu a voz daquele homem. Calma. Relaxa. Relaxar como? Seu medo estava estampado no rosto. Já não tinha certeza se queria aquilo mesmo. Queria fugir. Sumir como num passo de mágica.

Há cinco minutos que estava ali ouvindo aquele homem falar. Parecia uma eternidade. Ele era tão forte que ela sabia que se tentasse escapar ele a seguraria apenas com uma das mãos.

Sua cabeça rodava. Ela fechou os olhos e prestou atenção na voz dele. Não tenha medo… não vai doer - tentava demonstrar tranqüilidade. Tentou mais não conseguiu esboçar nenhum sorriso.

Já tinha passado dos trinta anos e aquilo para alguns parecia um absurdo. Sabia que mulheres bem mais jovens tirariam aquilo de letra. Mas não Terezinha, medrosa, fechada e muito, mais muito tímida sofria quando ia fazer algo pela primeira vez. Fechou os olhos novamente e esperou o pior. Sentiu um calafrio percorrer lhe a espinha. Meu Deus! O que estava fazendo? Tinha que tomar vergonha na cara. Mas que vergonha? Se ela nem sabia mais se tinha cara.

Pensou na família, o que eles iriam dizer. Amigas iriam rir dela. Não! Jamais contaria pra ninguém aquele momento. Seria um segredo dela. Abriu os olhos e olhou ao redor tentando pedir ajuda. Levou um susto. Cadê o homem?! Ele não estava mais ali. Respirou fundo, sentiu um alívio. Tinha ido embora. Era só levantar e sair. Mas cadê que as pernas ajudavam. Escapar seria o melhor remédio.

“Vamos perna ajuda” pensou. Tinha medo até de falar. Não queria ouvir sua voz. Tremia tanto que gaguejaria ao falar.
Respirou fundo mais uma vez, tentou em vão se acalmar. Passou a mão na testa e sentiu como estava molhada. O corpo não lhe ajudava. Queria mais não conseguiu fugir. Estava nessa confusão de sentimento quando sentiu uma mão pousar em seu ombro.
- Não vai começar?
Era ele…
Não tinha ido embora. Agora não tinha jeito. Tinha que seguir em frente. Tinha que começar. Sorriu sem graça. Ficou quieta. Não respondeu. Esperou que ele tomasse a iniciativa.
- Não tenha medo… isso não dói.
Não dói? Ele falava isso porque estava acostumado. Ela estava quase morrendo. “Vai Terezinha, não dê vexame” pensou.
- Liga aqui primeiro.
Liga aqui? Ele apontou. Ela observou.
A mulher ligou o estabilizador.
- Depois aqui - o dedo dele parecia uma espada.
Ela ligou a CPU e depois o monitor.
- Agora espera carregar.
Os minutos passavam. Ela observou que todos naquela sala estavam fazendo o exercício e só ela, pra variar não tinha começado nada.

Ele explicou o que tinha que fazer e se afastou. Terezinha acreditou que tudo ia correr bem. Apenas acreditou, era muito desastrada. Ficou admirando aquele mundo novo. Sua mão escorregou, caiu levemente sobre o teclado e bum. Tudo apagou na sua frente.

- Travou - alguém falou alto.
Todos os computadores haviam travado. O instrutor se aproximou. Perguntou o quê Terezinha tinha feito. Nada, respondeu tendo a certeza que tinha feito outra besteira.
Ele tentou ligar o computador. Nada aconteceu. Tentou mais uma vez. Nem sinal. Pediu para ela deixá-lo sentar ali. Tentou várias vezes ligar o computador. Os outros estavam travados. Pediu licença a todos e saiu.

Terezinha ficou ali imóvel. Viu quanto todos a olharam com ar de reprovação. Queria chorar. Olhou para o chão. Tentou novamente respirar fundo. Mas faltou ar. Sentou. Minutos depois quando percebeu que todos estavam novamente perdidos em seus pensamentos, pegou sua bolsa e saiu. Correu pelos corredores da escola e fugiu sem que ninguém percebesse. Quando alcançou a rua, chorava copiosamente. Era sempre assim, seria sempre assim uma eterna desastrada. Nunca fazia nada direito. Sua mãe tinha razão. Era um desastre em pessoa. Nunca deveria ter nascido. Ou então que morresse logo.

Nunca mais voltou a aula. Mesmo a recepcionista da escola ligando insistentemente questionando se ela não ia mais voltar. Não voltaria. Queria esquecer aquele momento. Nunca mais chegaria perto de um computador. Odiava quem tinha inventado aquele monstro.

Daquele dia em diante decidiu que não conheceria o “novo”. Seguira seu rumo sem grandes novidades. A rotina lhe era segura. Nunca esqueceu o que lhe aconteceu. Mesmo que só ela soubesse disso. Tinha trauma, jamais chegava perto de um computador. Foi dessa forma que Terezinha aprendeu que a primeira vez a gente nunca esquece.

 

 

Respostas

  1. Hanna disse:

    5, Maio, 2008 às 6:01 pm(#)

    Esse conto é fantástico. Prende muito bem o leitor. Adoreiii….

  2. Suyan Rocha disse:

    7, Maio, 2008 às 1:15 pm(#)

    Adorei a reviravolta da estória, fazendo que ao mesmo tempo que te prende a história, te faz rir!!!

    Adoreiii!!

    (ótima escolha da ilustração!!!!)

Deixe um comentário


Publicidade


 

Assine UNTITLED

Acompanhe por e-mail, todas as nossas atualizações.

Digite seu e-mail:

Serviço de FeedBurner

Add to Technorati Favorites