Problema com números
23, Mar, 2008 | Publicado em PopCrunch | 1 Comentário | por Evangelista
É raro encontrar uma pessoa que não teve dificuldades com a matemática. Desde a nossa infância trazemos recordações do sofrimento para trabalhar com os números, efetuar cálculos.
E aqueles algarismos bem dispostos, com vírgulas colocadas simétrica e milimetricamente, a deixar claro que à sua direita existiriam mais números a serem considerados. E no final, o resultado precisava estar correto, não havia margem para algo como: quase certo.Recordo com exatidão minha mãe ensinando-me a decifrar outro enigma: o das horas, minutos e segundos. Ela desenhou com giz um enorme relógio no pátio cimentado de nossa casa. Calmamente ensinou-me como eles conviviam e desempenhavam o seu papel.
Na semana passada, e passado é algo que nos foi subtraído da quantidade de tempo que ainda nos resta, fui ao médico. Dores no peito e na cabeça me alertaram de que algo não ia bem.
Cheguei ao consultório que se encontrava lotado. De imediato escutei uma senhora comentando com alguém que o médico estava atrasado mais de uma hora. Lembrei-me de mamãe naquela lição e imaginei o giz zombando da minha impaciência, se desmanchando vagarosamente no sentido anti-horário. Vendo aquela senhora que os olhares se voltavam para ela, tratou então de minimizar o desconforto causado, acrescentou que o médico estivera no hospital atendendo uma emergência, o motivo era mais do que justificável e não deveria ser incluído em nossa conta.
Do meu lado direito um senhor, com idade já passando dos 50, disfarçava a avançada calvície, com uma desalinhada peruca, enquanto alguns fios brancos de sua própria e rara cabeleira, rompiam os obstáculos e surgiam com a nítida intenção de revelar que o tempo não deixa contas em aberto.
Na minha frente outro senhor bastante obeso, com mais de 130 kg sentia-se incomodado e tentava, inutilmente, ajeitar-se na poltrona. A dificuldade para respirar também era visível, inquietando a todos, mas quando indagado, ele dizia que estava bem. Dividimos nossos sentimentos, emoções, e nos somamos em uma vontade de minimizar, diminuir a sua visível aflição. Sua esposa surgiu em seguida com vários formulários nas mãos. Fiquei pensando: Aquele senhor teria que fazer muitas subtrações em calorias ingeridas, aliadas a somatória de medicamentos, cuidados, restrições, etc., caso desejasse sobreviver.
De repente comecei a perceber uma outra realidade numérica, bem à minha frente. O problema estava com os homens, enquanto as senhoras eram, em sua maioria, acompanhantes, meras coadjuvantes nessa trama de desajeitados atores. Afinal somos maioria?
Finalmente chegou a minha vez, era o final da soma da minha ansiedade. Entramos em uma sala, eu e lógico, minha esposa. Enquanto ela acomodava-se em uma cadeira almofadada, estrategicamente colocada no canto, eu era pesado, medido, “eletrocardiogramado”, etc. Como não poderia deixar de ser, novamente a matemática resolveu deixar bem claro a minha situação e tudo o que viria a seguir. Com o olhar apreensivo a enfermeira me faz a famosa pergunta: O senhor está nervoso? Com a minha negativa, o resultado veio em um bom som numérico, na voz da enfermeira, 15 por 10.

1, Maio, 2008 às 7:32 pm(#)
Parabéns Waldir,
Me fez lembrar da nossa infância.
Quanta saudade!!!
Waldomiro