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Gatos e Ratos e a Divulgação da Ciência na Mídia de Massa

26 de março de 2012

SciTech

No final de 2010 os gatos apareceram nos noticiários, mas desta vez não por algum vídeo simpático ou em uma reportagem sobre animais de estimação. Mas porque um cientista do MIT (Massachusetts Institute of Technology, EUA), observando sua gata tomando água, conseguiu revelar o segredo de como os gatos tomam água sem molhar o queixo. Através da capilaridade, os gatos conseguem levantar uma pequena coluna d’água que é direcionada rapidamente para dentro da boca.

Com a divulgação da notícia da descoberta, tão importante para a humanidade quanto a criação de um rato que brilha no escuro, eu li comentários – inúmeros deles – contestando o uso de dinheiro público para pesquisas tão inúteis quanto essa. Normalmente junto aos comentários à pesquisa em si, podemos ler as opiniões sobre os próprios cientistas que as desenvolvem: malucos, sem-o-que-fazer, sem noção da realidade.

Falando em pesquisas bizarras, cientistas criaram sim, camundongos que brilham na luz ultravioleta. Eles conseguiram isso inserindo genes de uma espécie de água-viva no DNA dos ratos. Essa espécie de água-viva produz uma luz esverdeada quando iluminada com luz negra e a mesma característica foi induzida nos ratos.

Mais cientistas criando maluquices em seus laboratórios para ocupar suas mentes brilhantes com inutilidades, enquanto pessoas morrem de câncer, certo? Não, muito errado.

Em 2008 os três cientistas que criaram o camundongo que brilha no escuro ganharam o Prêmio Nobel de química (não qualquer prêmio, mas O Maior prêmio que um cientista pode receber) por terem desenvolvido a técnica para que houvesse a expressão de uma proteína luminescente de uma espécie de água-viva pelo DNA de um camundongo. Isso porque, a despeito do que foi noticiado, essa pesquisa tinha uma finalidade extremamente nobre: desenvolver métodos mais eficientes para a detecção de câncer. E conseguiram.

Hoje em dia, a técnica de inserção de proteínas bioluminescentes com “marcadores” específicos para as células cancerígenas, ou biossensores, permite o diagnóstico precoce de vários tipos de câncer, quando estão ainda do tamanho de pequenos agrupamentos de células, permitindo um tratamento mais eficiente e com menos efeitos colaterais. Graças a camundongos que brilham no escuro.

A divulgação de ciência pode transmitir ideias erradas sobre a finalidade de uma pesquisa. As agências de notícias estão sempre ávidas por fatos ou acontecimentos que chamem a atenção dos leitores, que possam atrair mais audiência, fazendo do seu site ou jornal um meio mais atraente para os anunciantes. Mas na busca de mais leitores ou na pressa de fornecer primeiro a notícia, o sensacionalismo pode acabar interferindo na correção da informação dada.

Via de regra, a notícia é dada com um título chamativo, exploração do absurdo ou do bizarro no corpo da reportagem e a finalidade principal ou motivação da pesquisa é fornecida somente no final e com referências vagas como: “com isso os cientistas buscam novas formas de fazer alguma coisa com isso”. Mas o meio científico hoje é extremamente competitivo e, por mais que o cientista seja um ser curioso, em 99% dos casos, eles têm metas a cumprir, resultados a apresentar e contas a prestar às agências de fomento à pesquisa.

Toda pesquisa começa com uma pergunta, que evolui para uma hipótese, que depois será testada, pesquisada, reproduzida, ponderada, até a formulação de uma teoria ou a resolução de um problema. É bem verdade que muitos avanços científicos foram alcançados por acaso, como a descoberta da penicilina ou o uso do Viagra para problemas de impotência (originalmente o princípio ativo do Viagra serviria para o controle da pressão sanguínea), mas normalmente a pesquisa é orientada para a resolução de um problema bastante real e que afeta o bem estar da sociedade.

Da próxima vez que você ler alguma notícia “bizarra” nos cadernos de ciências dos jornais e revistas ou nos sites de notícias e blogs, não acredite no sensacionalismo dado à divulgação daquela notícia. Pode acreditar que havia um questionamento válido e lógico para a elaboração da pesquisa e que os resultados alcançados serão utilizados para alguma tecnologia nova e útil no seu dia-a-dia.

E antes que eu me esqueça, sobre o caso do pesquisador do MIT, observando sua gata tomar água: ele trabalha com robótica e estava procurando modelos hidrodinâmicos para criar nanorobôs capazes de auxiliar em cirurgias delicadas do coração e cérebro, diminuindo o tempo de internação, riscos ao paciente e menos efeitos colaterais. A observação do funcionamento da língua do gato ao tomar água, ainda que casual, foi de extrema valia para o desenvolvimento de técnicas cirúrgicas.

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Cultura geek de verdade!

 

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About Adalberto Cesari

Biólogo, especialista em morcegos. Apaixonado por ciência, tecnologia, ficção científica e boa música. Amante da história antiga do mundo e da contemporânea brasileira. Crítico demais, mas otimista ao extremo. Às vezes falo sério, mas penso em memes. E por ser mineiro, consigo ler Guimarães Rosa sem precisar de dicionário.

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2 Responses to “Gatos e Ratos e a Divulgação da Ciência na Mídia de Massa”

  1. Tereza Machado Says:
    Gostei muito, Adalberto, as pessoas criticam antes mesmo de saberem qual o objetivo da pesquisa, sei bem disso.
    Sua apresentação me deixou sensibilizada, como professora de Língua Portuguesa, conhecer alguém que lê Guimarães sem dicionários é o máximo, mesmo sendo mineiro!
    Parabéns!

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  2. Guilherme Says:
    Achei a reportagem fantástica! Muitas vezes o cientista é crucificado por pesquisar “coisas que servem para nada”. Mas ninguém entende que o nada está para o atual momento e ninguém garante que daqui a alguns anos não virá a ser de extrema valia! Só teve uma coisinha que eu não concordei: a pergunta não evolui para uma hipótese. A hipótese é uma suposição da resposta da pergunta.

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