O Neutrino é Rápido ou Não É?

30 de março de 2012

SciTech

Sílvio Santos

E=mc2. Esta fórmula fez de Albert Einstein um dos mais famosos cientistas de todos os tempos. Bom, a fórmula e a tradicional fotografia da língua de fora. A fórmula determina que a Energia é igual à massa vezes uma constante elevada ao quadrado. E esta constante é a velocidade da luz, a velocidade mais alta registrada até hoje, de cerca de 300 mil quilômetros por segundo – ou mais exatamente, 299.792.458 m/s no vácuo. Essa velocidade é o limite máximo das leis da física tal como conhecemos. Ou não?

A divulgação da notícia de que os cientistas do OPERA (experimentos com neutrinos no super acelerador de partículas do CERN) mediram velocidades superiores à da luz em neutrinos causou um grande furor no meio científico. Furor que chegou também à imprensa, blogs, gerou discussões e piadas.

Durante algumas semanas a ciência esteve à beira de uma revolução gigantesca, maior até que a determinação da estrutura em hélice do DNA humano, na década de 50. Muitos aceitaram a possibilidade, enquanto grande parte da comunidade científica permaneceu cética.


Até que em fevereiro último os mesmos cientistas do OPERA (Oscillation Project with Emulsion-tRacking Apparatus) divulgaram que os resultados divergentes podem ter sido obtidos por causa de problemas em cabos no emissor ou de erros de calibragem dos GPSs utilizados nas medições, fornecendo assim os dados conflitantes com a Teoria da Relatividade. Como é costumeiro em laboratórios, a culpa deve ter sido de algum estagiário.

 

Mas qual o problema afinal? O que mudaria caso os dados fossem verdadeiros? Porque cientistas são tão céticos em aceitar resultados divergentes?

O problema da velocidade dos neutrinos é que a velocidade da luz é uma constante utilizada para inúmeras medições, que podem ir desde calibragem de equipamentos eletrônicos até na determinação do posicionamento dos satélites que permitem o transporte de dados e transmissões de TV. Isso só para dar um exemplo no seu cotidiano.

Se essa constante não é um limite, então muitas conclusões sobre a massa dos elementos, estados da matéria e pesquisa atômica teriam que ser revistos. Seria necessário rever algumas observações relativas à distância de estrelas, galáxias, eventos astronômicos e mesmo eventos mais próximos do nosso planeta.

Já os cientistas que mantiveram uma atitude cética com relação aos resultados, estavam apenas sendo cuidadosos com o que liam. Ciência é algo sério demais para ser mudado porque algum dado novo foi obtido. Tudo tem que ser revisto, discutido, observado e repetido. Muitos são os casos de “revoluções científicas” que não passaram de erros, como neste caso dos neutrinos, ou até mesmo de fraude, como nos muito casos de “sucesso” em processos de fusão à frio ou na clonagem de alguns animais. Eu mesmo conheço um caso de um paleontólogo que divulgou a descoberta de um fóssil de mamífero muito antigo, causando um grande impacto no meio científico. Após uma análise mais detalhada foi visto que eram fósseis antigos sim, mas os dentes eram de um crocodilo pré-histórico, não de um mamífero.

Por isso os cientistas preferem esperar para divulgar suas descobertas, discutem com colegas, apresentam seus dados em conferências e seminários, para que as dúvidas levantadas por outros pesquisadores sejam esclarecidas, consubstanciando seus dados e comprovando suas hipóteses.

A notícia sobre a velocidade dos neutrinos causou também um outro efeito: com a quebra deste limite inquebrável – a velocidade da luz – as dobras espaciais, velocidades “warp” e outras maravilhas da ficção científica ficaram, de repente, mais possíveis. Os fãs de Sci-Fi (como eu) certamente derramaram uma pequena lágrima de tristeza, graças a um GPS descalibrado.

Imagens: (Sílvio Santos) foto divulgação do SBT e (Dawn of the Large Hadron Collider) de Maximilien Brice, CERN.

 

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About Adalberto Cesari

Biólogo, especialista em morcegos. Apaixonado por ciência, tecnologia, ficção científica e boa música. Amante da história antiga do mundo e da contemporânea brasileira. Crítico demais, mas otimista ao extremo. Às vezes falo sério, mas penso em memes. E por ser mineiro, consigo ler Guimarães Rosa sem precisar de dicionário.

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